terça-feira, 13 de maio de 2008

PAULO FREIRE: A leitura do Mundo

PAULO FREIRE: A leitura do Mundo



"Ivo viu a uva", ensinavam os manuais de alfabetização. Mas o professor
Paulo Freire, com o seu método de alfabetizar conscientizando, fez adultos e
crianças, no Brasil e na Guiné-Bissau, na Índia e na Nicarágua, descobrirem
que Ivo não viu apenas com os olhos. Viu também com a mente e se perguntou
se uva é natureza ou cultura.



Ivo viu que a fruta não resulta do trabalho humano. É Criação, é natureza.
Paulo Freire ensinou a Ivo que semear uva é ação humana na e sobre a
natureza. É a mão, multiferramenta, despertando as potencialidades do fruto.
Assim como o próprio ser humano foi semeado pela natureza em anos e anos de
evolução do Cosmo.



Colher a uva, esmagá-la e transformá-la em vinho é cultura, assinalou Paulo
Freire. O trabalho humaniza a natureza e, ao realizá-lo o homem e a mulher
se humanizam. Trabalho que instaura o nó de relações, a vida social. Graças
ao professor, que iniciou sua pedagogia revolucionária com trabalhadores do
Sesi de Pernambuco, Ivo viu também que a uva é colhida por bóia-frias, que
ganham pouco, e comercializada por atravessadores, que ganham melhor.



Ivo aprendeu com Paulo que, mesmo sem ainda saber ler, ele não é uma pessoa
ignorante. Antes de aprender as letras, Ivo sabia erguer uma casa, tijolo a
tijolo. O médico, o advogado ou o dentista, com todo o seu estudo, não era
capaz de construir como Ivo. Paulo Freire ensinou a Ivo que não existe
ninguém mais culto do que o outro, existem culturas paralelas, distintas,
que se complementam na vida social.



Ivo viu a uva e Paulo Freire mostrou-lhe os cachos, a parreira, a plantação
inteira. Ensinou a Ivo que a leitura de um texto é tanto melhor compreendida
quanto mais se insere o texto no contexto do autor e do leitor. É dessa
relação dialógica entre texto e contexto que o autor e do leitor. É dessa
relação dialógica entre texto e contexto que Ivo extrai o pretexto para
agir. No início e no fim do aprendizado é a práxis de Ivo que importa.
Práxis-teoria-práxis, num processo indutivo que torna o educando sujeito
histórico.



Ivo viu a uva e não viu a ave que, de cima, enxerga a parreira e não vê a
uva. O que Ivo vê é diferente do que vê a ave. Assim, Paulo Freire ensinou a
Ivo um princípio fundamental da epistemologia: a cabeça pensa onde os pés
pisam. O mundo desigual pode ser lido pela ótica do opressor ou pela ótica
do oprimido. Resulta uma leitura tão diferente uma da outra como entre a
visão Ptolomeu, ao observar o sistema solar com os pés na Terra, e a de
Copérnico, ao imaginar-se com os pés no Sol.



Agora Ivo vê a uva, a parreira e todas as relações sociais que fazem do
fruto festa no cálice de vinho, mas já não vê Paulo Freire, que mergulhou no
Amor na manhã de 2 de maio de 1997. Deixou-nos uma obra inestimável e um
testemunho admirável de competência e coerência.



Paulo deveria estar em Cuba, onde receberia o título de Doutor Honoris
Causa, da Universidade de Havana. Ao sentir dolorido seu coração que tanto
amou, pediu que eu fosse representá-lo. De passagem marcada para Israel, não
me foi possível atendê-lo. Contudo, antes de embarcar fui rezar com Nita,
sua mulher, e os filhos, em torno de seu semblante tranqüilo: Paulo via
Deus.



Frei Betto é escritor.


http://www.joseferreira.info/


http://www.paulofreire.org